É no ato de tramar através do tempo que podemos achar as afinidades
que permeiam seus processos criativos. O que o tecer deste texto pretende é explorar
o processo de cada artista e dar maior visibilidade às semelhanças
e às diferenças que estabelecem as relações entre
as obras aqui presentes. As tramas tecem conceitos que fundam suas obras e as
tessituras de tempo modulam suas poiéticas.
O tempo está intrinsecamente ligado à maneira de trabalhar de cada
artista: Gisela precisa dele para sobrepor todas as camadas de tinta em cada
um dos seus trabalhos. As pausas e os recomeços - fenômeno de fluência
do tempo - produzem a dinâmica do seu processo. O tempo que uma árvore
necessita para os seus anéis de crescimento formarem os desenhos que estimularam
as pesquisas de Heloísa. Para Vivi Gil, a origem dos tecidos, sua matéria
prima, está no processo de tecelagem que demanda tempo para sua concretização.
A repetição, como procedimento plástico, nas obras das três
artistas é mais um elo significativo que faz parte de suas poéticas.
A repetição surge através do gesto e, também, no
uso de um mesmo elemento formal. O quadrado, além das linhas, também é um
signo recorrente que se torna visível através das tramas gráficas,
construídas a grafite ou a carvão, na pintura de Gisela. Nos biombos
de Heloísa, surgem como elementos repetidos que vão se agregando
uns aos outros até formar um painel, combinando as linhas da madeira em
grafismos únicos. Na roupa de Vivi Gil eles também aparecem nas
marcas feitas através das dobras do tecido. A busca do novo, através
da repetição, é o ato que instaura o modo de construir estas
obras como um referencial da própria identidade de cada uma das artistas.
A repetição quer trazer sempre o diferente, através de seu
devir, talvez como possibilidade primeira de estar sempre avançando em
relação ao tempo, na tentativa de tramar-se na sua irreversibilidade
ou na intenção de capturá-lo.
Gisela Waetge tem seu principal meio expressivo na pintura sobre tela ou sobre
papel. As suas obras são caracterizadas pela delicadeza que permeia todo
o seu processo criativo e, juntando a pesquisa ao acaso, cria jogos de sedução
que instigam o nosso olhar. As tramas de linhas, em uma seqüência
modular e os gestos repetidos no tempo e no espaço nos mostram o dinamismo
de sua obra. Estas atitudes representam um rito de passagem entre o olhar e o
pensamento, pois produzem a sensação de linhas que se expandem
infinitamente. A poética criada através do ritmo das linhas e dos
pingos de tinta que se esvaecem, na ação de escorrer pela superfície
pictórica, apresenta uma trama de singular beleza cromática, feita
de translúcidas camadas. Não é um trabalho que permite uma
leitura apressada, os questionamentos ali presentes provocam reflexões
sobre as muitas possibilidades do campo artístico. Quem embrenhar-se nas
suas tramas, de uma leveza abstrata, pode viajar por caminhos outros, diferentes
da persistência, paciência e concentração que abrange
o fazer de Gisela.
Heloísa Crocco, por sua vez, desenvolveu a partir do projeto Topomorfose:
ato de dar forma (morfose) ao cume (topo) da madeira, uma série de trabalhos
originais, no plano e no espaço. Os grafismos, padrões e texturas
da madeira cortadas em topo criaram uma série de matrizes, que aplicadas
no design de superfície acabaram impressas em vários produtos:
tecidos, papéis, louças, roupas de cama e outros. Heloísa
criou também os painéis textura – walldesign – com
sobras de madeiras. Mais precisamente com os cantos cortados das madeiras, chamada
de aparas. As linhas e/ou veios e padrões da madeira, em cada um de seus
trabalhos geram grafismos de cores variadas, causando diferentes movimentos dentro
dos painéis. Além disso, ela também intervém no ritmo
natural da madeira acrescentando cores em um dos lados de cada pequeno módulo.
Se o trabalho for observado de um dos lados, apresentará o aspecto natural
da madeira em toda a sua exuberância gráfica, mas, no outro, a cor
faz contrapontos necessários para formar um novo conjunto de desenhos.
As possibilidades infinitas de combinações criam as séries
e estas geram outras, num incessante desdobramento, sempre enriquecidas por este
contato direto com a natureza. O encantamento com a floresta Amazônica
foi o que impulsionou Heloísa a esta grande pesquisa de formas, texturas
e cores. O estudo formal que se apresenta sempre inovador devido ao modo como
as madeiras são cortadas; e das composições infinitas de
seus pedaços já cortados, desencadearam um método para usar
no design. O requinte e a meticulosidade chamam a atenção para
os trabalhos. Não é difícil perceber o rigor de suas construções
articuladas entre o belo e o perfeito. Esta artista, tão inquieta em suas
pesquisas, e que trabalha com o universo das sobras de madeira, passou a investir
também nas sobras de tecido. Os pequenos pedaços de pano evidenciam
uma nova etapa de trabalho para Heloísa Crocco, ainda em fase de estudos
e experimentações, que vão somar-se aos trabalhos já realizados
num diálogo, porém, com outros ritmos e cores.
Vivi Gil, é uma estilista, e como tal é uma artista que lida com
as formas, as cores e tessituras e faz parte de um universo que cada vez mais
se destaca na cultura contemporânea. Ela usa toda a sua sensibilidade impregnando
suas criações de dimensões artísticas, pois converte
seus tecidos em experiências para o olhar, ancorada na sua capacidade de
invenção e na sua caminhada de muitos anos no campo da moda. Os
fios tramam-se e criam tecidos que desafiam as possibilidades primeiras de seu
uso: proteger o corpo. A roupa é uma verdadeira criação
estética que interage diretamente com o corpo que veste; corpo este que
não está mais passivo à espera de proteção.
A profissão de estilista reveste-se hoje de atos criativos, de pesquisas
e de discursos próprios ao seu campo de conhecimento. Vivi Gil cria, através
de seu trabalho, modelos com técnicas especiais obtidas pela experimentação
de tecidos e materiais. Sua visão de artista se faz gesto e em seu processo
de atelier, ela trabalha com o tecido buscando na sua aparência a leveza
do papel. Ela precisa de tempo para tecer o seu tecido. Por meio de gestos precisos,
ela imprime marcas nele. Quer tirar-lhe o peso e deixá-lo com significativas
mudanças: as marcas no tecido como dobras no papel. Importante aquisição:
o tecido agora tem marcas de quadrados. Assim Vivi Gil mostra uma possibilidade
de criação que pode alargar-se para tantas outras, dependendo do
material e da técnica utilizada, pois o campo da moda está em constante
diálogo com o simbólico e com o sensível.
Tessituras de tempo, portanto, abarca o percurso de construção
das obras de Gisela Waetge, Heloísa Crocco e Vivi Gil. O tecer no tempo
do gesto criativo nutre as obras das suas qualidades inerentes e faz a ligação
entre elas. O tempo como necessidade primeira de toda criação de
uma obra de arte e como tema pontual nesses processos é imutável,
mas as ações que decorrem durante os percursos do fazer, através
desse tempo, são constantemente modificadas. O desejo, a vontade, o impulso,
a emoção e o pensamento, que estão envolvidos na criação
se combinam em atos poéticos formais. O tempo que trançado e tramado
faz uma tradução silenciosa do imaginário de cada uma das
artistas e nos contempla com uma desaceleração do olhar, necessária à fruição
da obra que está ali, como uma meada de linha pronta para ser desembaraçada.
Ana
Zavadil
Curadora
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