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Tessituras de Tempo

Três artistas que atuam em diferentes universos de produções visuais e apresentam, em suas criações, questões que os relacionam reciprocamente. Vários aspectos podem ser salientados para apresentar a contigüidade entre as suas obras, entre eles destacam-se: a linha e/ou fio, que delineia as tramas que fazem as aproximações entre as obras, o ato de repetir e o tempo como o grande sintetizador dos processos criativos.

A trama das linhas da pintora Gisela Waetge, as texturas que formam as tramas de linhas nas madeiras da designer Heloísa Crocco e a de fios que, tramados, dão origem aos tecidos da estilista Vivi Gil são características que constituem as obras desta 4ª mostra de Arte e Design. Essas três práxis estão em constantes diálogos, similitudes e contaminações. O cruzamento entre os três campos de criação, um beneficiando-se e apropriando-se de aspectos peculiares do outro, oferece-nos uma troca de influências e experiências.
 
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É no ato de tramar através do tempo que podemos achar as afinidades que permeiam seus processos criativos. O que o tecer deste texto pretende é explorar o processo de cada artista e dar maior visibilidade às semelhanças e às diferenças que estabelecem as relações entre as obras aqui presentes. As tramas tecem conceitos que fundam suas obras e as tessituras de tempo modulam suas poiéticas.

O tempo está intrinsecamente ligado à maneira de trabalhar de cada artista: Gisela precisa dele para sobrepor todas as camadas de tinta em cada um dos seus trabalhos. As pausas e os recomeços - fenômeno de fluência do tempo - produzem a dinâmica do seu processo. O tempo que uma árvore necessita para os seus anéis de crescimento formarem os desenhos que estimularam as pesquisas de Heloísa. Para Vivi Gil, a origem dos tecidos, sua matéria prima, está no processo de tecelagem que demanda tempo para sua concretização.

A repetição, como procedimento plástico, nas obras das três artistas é mais um elo significativo que faz parte de suas poéticas. A repetição surge através do gesto e, também, no uso de um mesmo elemento formal. O quadrado, além das linhas, também é um signo recorrente que se torna visível através das tramas gráficas, construídas a grafite ou a carvão, na pintura de Gisela. Nos biombos de Heloísa, surgem como elementos repetidos que vão se agregando uns aos outros até formar um painel, combinando as linhas da madeira em grafismos únicos. Na roupa de Vivi Gil eles também aparecem nas marcas feitas através das dobras do tecido. A busca do novo, através da repetição, é o ato que instaura o modo de construir estas obras como um referencial da própria identidade de cada uma das artistas. A repetição quer trazer sempre o diferente, através de seu devir, talvez como possibilidade primeira de estar sempre avançando em relação ao tempo, na tentativa de tramar-se na sua irreversibilidade ou na intenção de capturá-lo.

Gisela Waetge tem seu principal meio expressivo na pintura sobre tela ou sobre papel. As suas obras são caracterizadas pela delicadeza que permeia todo o seu processo criativo e, juntando a pesquisa ao acaso, cria jogos de sedução que instigam o nosso olhar. As tramas de linhas, em uma seqüência modular e os gestos repetidos no tempo e no espaço nos mostram o dinamismo de sua obra. Estas atitudes representam um rito de passagem entre o olhar e o pensamento, pois produzem a sensação de linhas que se expandem infinitamente. A poética criada através do ritmo das linhas e dos pingos de tinta que se esvaecem, na ação de escorrer pela superfície pictórica, apresenta uma trama de singular beleza cromática, feita de translúcidas camadas. Não é um trabalho que permite uma leitura apressada, os questionamentos ali presentes provocam reflexões sobre as muitas possibilidades do campo artístico. Quem embrenhar-se nas suas tramas, de uma leveza abstrata, pode viajar por caminhos outros, diferentes da persistência, paciência e concentração que abrange o fazer de Gisela.

Heloísa Crocco, por sua vez, desenvolveu a partir do projeto Topomorfose: ato de dar forma (morfose) ao cume (topo) da madeira, uma série de trabalhos originais, no plano e no espaço. Os grafismos, padrões e texturas da madeira cortadas em topo criaram uma série de matrizes, que aplicadas no design de superfície acabaram impressas em vários produtos: tecidos, papéis, louças, roupas de cama e outros. Heloísa criou também os painéis textura – walldesign – com sobras de madeiras. Mais precisamente com os cantos cortados das madeiras, chamada de aparas. As linhas e/ou veios e padrões da madeira, em cada um de seus trabalhos geram grafismos de cores variadas, causando diferentes movimentos dentro dos painéis. Além disso, ela também intervém no ritmo natural da madeira acrescentando cores em um dos lados de cada pequeno módulo. Se o trabalho for observado de um dos lados, apresentará o aspecto natural da madeira em toda a sua exuberância gráfica, mas, no outro, a cor faz contrapontos necessários para formar um novo conjunto de desenhos. As possibilidades infinitas de combinações criam as séries e estas geram outras, num incessante desdobramento, sempre enriquecidas por este contato direto com a natureza. O encantamento com a floresta Amazônica foi o que impulsionou Heloísa a esta grande pesquisa de formas, texturas e cores. O estudo formal que se apresenta sempre inovador devido ao modo como as madeiras são cortadas; e das composições infinitas de seus pedaços já cortados, desencadearam um método para usar no design. O requinte e a meticulosidade chamam a atenção para os trabalhos. Não é difícil perceber o rigor de suas construções articuladas entre o belo e o perfeito. Esta artista, tão inquieta em suas pesquisas, e que trabalha com o universo das sobras de madeira, passou a investir também nas sobras de tecido. Os pequenos pedaços de pano evidenciam uma nova etapa de trabalho para Heloísa Crocco, ainda em fase de estudos e experimentações, que vão somar-se aos trabalhos já realizados num diálogo, porém, com outros ritmos e cores.

Vivi Gil, é uma estilista, e como tal é uma artista que lida com as formas, as cores e tessituras e faz parte de um universo que cada vez mais se destaca na cultura contemporânea. Ela usa toda a sua sensibilidade impregnando suas criações de dimensões artísticas, pois converte seus tecidos em experiências para o olhar, ancorada na sua capacidade de invenção e na sua caminhada de muitos anos no campo da moda. Os fios tramam-se e criam tecidos que desafiam as possibilidades primeiras de seu uso: proteger o corpo. A roupa é uma verdadeira criação estética que interage diretamente com o corpo que veste; corpo este que não está mais passivo à espera de proteção. A profissão de estilista reveste-se hoje de atos criativos, de pesquisas e de discursos próprios ao seu campo de conhecimento. Vivi Gil cria, através de seu trabalho, modelos com técnicas especiais obtidas pela experimentação de tecidos e materiais. Sua visão de artista se faz gesto e em seu processo de atelier, ela trabalha com o tecido buscando na sua aparência a leveza do papel. Ela precisa de tempo para tecer o seu tecido. Por meio de gestos precisos, ela imprime marcas nele. Quer tirar-lhe o peso e deixá-lo com significativas mudanças: as marcas no tecido como dobras no papel. Importante aquisição: o tecido agora tem marcas de quadrados. Assim Vivi Gil mostra uma possibilidade de criação que pode alargar-se para tantas outras, dependendo do material e da técnica utilizada, pois o campo da moda está em constante diálogo com o simbólico e com o sensível.

Tessituras de tempo, portanto, abarca o percurso de construção das obras de Gisela Waetge, Heloísa Crocco e Vivi Gil. O tecer no tempo do gesto criativo nutre as obras das suas qualidades inerentes e faz a ligação entre elas. O tempo como necessidade primeira de toda criação de uma obra de arte e como tema pontual nesses processos é imutável, mas as ações que decorrem durante os percursos do fazer, através desse tempo, são constantemente modificadas. O desejo, a vontade, o impulso, a emoção e o pensamento, que estão envolvidos na criação se combinam em atos poéticos formais. O tempo que trançado e tramado faz uma tradução silenciosa do imaginário de cada uma das artistas e nos contempla com uma desaceleração do olhar, necessária à fruição da obra que está ali, como uma meada de linha pronta para ser desembaraçada.

Ana Zavadil
Curadora


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