Nelton Pellenz
Meu trabalho consiste em registros de paisagens em vídeo.
A proposta é aproximar as linguagens da fotografia e do
vídeo. Utilizo-me, para isto, de câmera fixa e de
planos seqüenciais, com o intuito de ampliar as relações
entre o olhar do observador e a imagem capturada. Em “L-Co”,
registro uma nuvem de dentro de um veículo em alta velocidade.
No vídeo, proponho uma desaceleração drástica
do movimento, para gerar uma imagem silenciosa e semi-inerte;
elementos sonoros e visuais irrompem a paisagem para lembrar
que tudo ainda está em movimento.
O vídeo “Passarim” propõe um tempo
de espera ao expectador ao se aproximar da linguagem fotográfica.
Em uma paisagem inerte, um delicado acontecimento gera uma nova
e renovada atenção sobre a imagem.
Dirnei Prates
No trabalho “Paisagens Populares”, utilizo-me de
apropriações de fotografias dos jornais diários,
para extrair delas paisagens quase sempre desapercebidas, pertencentes
a um segundo ou terceiro plano do assunto ou notícia
principal. A inversão dos papéis também
se dá ao ampliar em grandes formatos estes pequenos
registros.
Em “Dia Branco”, a paisagem que surge ao ler o
livro é composta de coroamentos isolados de prédios
que circundam a minha residência. A parte do edifício
que aparece na foto, é muito pequena e insuficiente
para localizá-lo em um espaço, podendo pertencer
a qualquer paisagem. Esta idéia de outro lugar é reforçada
com a montagem em planos do livro, pois recria inusitadas linhas
do horizonte sobrepostas em camadas. O livro, disposto em uma
pequena mesa com um único lugar, sugere uma leitura
intimista.
Uma
cidade que passa
Há uma cidade de grandes estruturas que têm
a duração de anos ou séculos.
E há a cidade de um dia, a cidade que dá a
imediata impressão de ser feita de imagens,
de sensações, de impulsos mentais, a
que realmente vemos e que não é dada
pelas arquiteturas imóveis. Esta é a
cidade que vemos. Este é o ambiente no qual
vivemos. As grandes estruturas nos escaparão,
não as poderemos mais ver.
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As obras participantes da exposição (
Lances
de Vista: paisagens), de Dirnei Prates e Nelton Pellenz,
parecem confirmar a preferência de grande parte dos artistas
de hoje em recorrer à fotografia e ao vídeo como
meios de expressão.
Nas origens da arte contemporânea, essa preferência
foi interpretada como uma tendência à ‘desmaterialização
da arte’, expressão que, ainda hoje, soa paradoxal,
pois como é possível que obras desmaterializadas
se apresentem sob a forma de vídeos, performances, instalações
e fotografias?
Em relação a esse problema, a teórica e historiadora norte-americana,
Lucy Lippard, que cunhou o termo ‘desmaterialização da arte’ como
sinônimo de ‘arte conceitual’, afirmou:
| Entendo ‘arte conceitual’ como uma manifestação
na
qual a idéia é o centro supremo e a forma material é secundária,
efêmera, barata, despretensiosa e/ou desmaterializada¹. |
Para Lippard, a desmaterialização da arte se opunha às categorias
artísticas tradicionais, aos lugares oficiais da arte e, sobretudo, à condição
da obra como produto mercadológico, vinculando claramente a produção
conceitual ao ideário da contracultura dos anos ‘60.
Hoje, os tempos são outros e as relações entre arte e vida
se produzem em termos menos dicotômicos. Porém, se aceitarmos a
definição de arte conceitual de Lippard, (obras em que a idéia
assume o centro e a materialidade é secundária), pouco da arte
produzida hoje escapará de ser considerada herdeira dessa vertente.
Talvez o que surpreenda no desenvolvimento da arte conceitual, ao longo das últimas
décadas, é que não foram as obras, mas as fronteiras entre
arte e vida que se desmaterializaram. Ainda que não se tenha cumprido
o sonho dos pioneiros da desmaterialização de ver a arte ganhar
as ruas e as paredes dos museus desaparecerem, as fronteiras entre arte e vida
se tornaram mais permeáveis e fluidas, graças, em parte, à atuação
daquela geração.
Hoje, aceitamos que o que se passa nas galerias de arte se passa dentro da vida,
a despeito do fato de que poucos compartilham desse pequeno nicho e de que parte
dos artistas desacredite de sua eficiência como lugar de mediação.
Aceitamos o mundo da arte como parte da vida, da mesma forma que aceitamos aquilo
a que assistimos na televisão, ou o que imaginamos se desenrolar sob os
viadutos, no interior das celas de penitência e nas salas de concerto;
parte da vida é o mundo noturno observado pelas sentinelas, aquilo que
se enfileira nas prateleiras de um armazém e o sono de quem se abriga
nos dormitórios residenciais.
¹ LIPPARD, Lucy. Escape Attempts. In: “Six Years: the Dematerialization
of Art Object from 1966 to 1972”. Berkeley: University California Press,
2001.
Como poderia ser diferente com a arte?
Seguindo as considerações de Marcelo Coutinho, talvez a arte contemporânea
seja mesmo insipiente na qualidade de um campo do saber; todavia, nem mesmo isso
a exclui da esfera da vida, pois tudo o que existe, existe nela, e em nenhuma
outra parte.
Na galeria da Fundação Ecarta, a meio caminho entre o bairro Azenha
e o centro de Porto Alegre, Dirnei Prates e Nelton Pellenz nos convidam a compartilhar
paisagens capturadas desde outros interiores, seja de uma janela aberta sobre
o horizonte edificado da cidade, ou de uma mirada para fora de si, em direção
ao céu.
Se eles elegeram a fotografia e o vídeo para essa comunicação,
arriscaria dizer, foi para que o fluxo da vida urbana passasse por ali também,
sob a forma de ondas de luz, e abrisse janelas nas paredes já não
tão espessas entre galeria e arte, exposição e rua, artista
e homem que passa.
Maria Helena Bernardes, outubro de 2007. |