Já na segunda via, dos estilistas que bebem na fonte
das artes visuais, há a célebre coleção
de Yves Saint Laurent baseada nos trabalhos de Piet Mondrian;
ou os reiterados trabalhos da britânica Vivienne Westwood,
que tem no repertório punk e nos trajes e pinturas dos
séculos XVII e XVIII suas mais notórias fontes
de inspiração. E o que dizer das impressionantes
criações de Issey Miyake, verdadeiras esculturas
de plissados?
Não cabe, aqui, traçar qualquer tipo de histórico ou mesmo
comentários mais complexos acerca desses cruzamentos. Entretanto, é importante
frisar que é a partir do século XX, com a consolidação
das esferas do design e da moda, que assistiremos à ascensão de
grandes desenhadores, num movimento mais ou menos semelhante ao ocorrido no século
XV, no âmbito das artes visuais, com o que se convencionou chamar de Renascimento.
Nos tempos atuais, de enorme apelo visual, em que a arte contemporânea
nem sempre tem conseguido alcançar, seduzir e mesmo questionar o público,
a moda tem se mostrado um campo repleto a investigações e a reflexões
de várias ordens. Observando os mega-eventos ligados ao sistema da moda,
notadamente os desfiles das grandes marcas, quando são exibidas as tendências
e coleções para a temporada, podemos pensá-los tanto a partir
da lógica da efemeridade e do consumo ostentatório, como grandes
espetáculos culturais e cênicos, nos quais aspectos estéticos, étnicos,
religiosos, artísticos e tecnológicos, entre diversos outros, fundem-se
em torno do corpo, do mostrar-se e do parecer.
A exposição Arte,
Design & Moda: Costuras – abrindo
a programação 2007 do Espaço Ecarta,
que tem como foco a articulação dos campos
das artes visuais e do design – traz justamente
obras de dois artistas que operam a partir de cruzamentos
semelhantes. São eles: Felix
Bressan e Carlos
Brum Motta.
O primeiro é artista plástico com consolidada
trajetória em escultura e cenografia, celebrada por
participações em importantes mostras individuais
e coletivas pelo país, a exemplo das três primeiras
edições da Bienal Mercosul. As esculturas apresentadas
são da série Corpo Ausente, surgida entre 1995-96,
ao longo de seu Mestrado em Poéticas Visuais junto à UFRGS,
e que até hoje vem sendo trabalhada, embora de modo
não sistemático. Como pontua a jornalista e crítica
de arte Angélica de Moraes, elas abordam a roupa como
epiderme de fetiche. Inspiradas nas antigas peças íntimas
do vestuário feminino, como saias de armação,
anquinhas e espartilhos, remetem tanto ao desejo e à memória
de um corpo distante, como trazem incorporado um forte apelo
sadomasoquista, expresso nos elementos pontiagudos, nas amarras,
correias e ferros justapostos a esse corpo imaginário.
Estas
peças exibem também uma relação
explícita com o trabalho de modelagem de vestuário,
ao qual Felix se dedicou por mais de dez anos (1979-1990),
primeiro como ajudante da mãe, que mantinha um curso
de modelagem industrial em Caxias do Sul, sua cidade natal,
depois como professor nessa mesma escola.
Explorando, de um
lado, a maciez e delicadeza dos couros e resinas que, em geral,
estruturam os corpetes e, de outro,
a robustez e certa opressão dos ferros das saias, que
ampliam o objeto e prendem o espectador, estas esculturas proporcionam
um forte impacto visual, tanto pelo desenho em si, como pelo
movimento que elas clamam. Surpreendem também pelo esmero
com o bem acabado, com os encaixes precisos e a simetria; surpreendem
mais ainda quando percebemos com o quê elas são
feitas: resina, retalhos de couro, metal, varas de guarda-chuva,
teclas de máquina de escrever, pedaços de madeira...
Todos materiais reaproveitados que o artista funde com maestria,
num processo de decomposição, reconstrução
e também deformação, questionando a função
instrumental e original do objeto e dando-lhe outros significados.
Em
sua poética como um todo, interessa a Felix a articulação
da escultura com o seu entorno. E, no caso específico
da série Corpo Ausente, o elemento cinético é primordial.
Muitas dessas obras são monumentais, exigindo grandes
espaços nos quais possam girar e envolver plenamente
o espectador. Muitas são também cambiáveis,
podendo ser reduzidas ou até ampliadas, bastando, para
isso, que o espectador interfira. Tal operação
só é possível porque elas funcionam como
máquinas, com suas engrenagens pontualmente articuladas.
E aqui podemos perguntar: o artista nos sugere um corpo maquinizado
ou uma máquina corporificada?
Estabelecendo uma grande
costura entre referências visuais
do ambiente da moda, o vazio do corpo e o cheio a que a escultura
remete, a sensualidade do feminino idealizado e também
a dor e a prisão que lhe são impostas, Felix
Bressan nos oferece uma obra singular e instigante, que tanto
nos convida ao mais puro deleite, como a reflexões de
várias ordens.
Já Carlos Brum Motta (in
memoriam) construiu sua trajetória
como estilista trabalhando para várias butiques e casas
de renome internacional. As peças expostas são
uma pequena mostra de sua versatilidade e talento, tanto no
segmento do vestuário, como no da decoração.
Criadas a partir de tecidos confeccionados em tear, estampados
manualmente ou trabalhados na tradicional técnica indiana
do appliqué, elas constituem exemplo da feliz união
entre moda, desenho e cultura visual.
Homem de admirável conhecimento no campo do cinema,
da fotografia e das artes visuais, Motta fez diversas parcerias
com artistas e amigos, produzindo a partir de tecidos pintados
e interferidos por nomes como Alex Vallauri e Maria Lídia
Magliani. Era um tipo de desafio que apreciava especialmente.
Os
motivos para muitas de suas peças, Carlos buscava
no dia-a-dia, nas aparentemente tolas e fortuitas formas. Em
seus passeios e caminhadas, mantinha os sentidos e olhos bem
abertos, quase sempre acompanhado pela câmara fotográfica.
Registrava, assim, as ondulações das pétalas
de uma flor, a sombra da grade projetada na calçada,
o efeito das luminárias num dia chuvoso. Detalhes como
esses podiam funcionar como mote para o desenvolvimento de
padrões para seus carimbos e mesmo costuras. Este, aliás, é um
aspecto particularmente interessante de suas criações:
Carlos trazia para a superfície dos tecidos as várias
possibilidades da dupla agulha-e-linha, criando desenhos e
texturas a partir do que ele chamava de “passar a linha”.
Outro
fator marcante é o profundo afeto e até respeito
que tinha em relação aos tecidos em geral. Sabia
aproveitar desde as grandes tramas, até as fazendas
pouco nobres e os retalhos tradicionalmente destinados à lixeira.
Em seu atelier, mantinha espécies de famílias
de tecidos, agrupadas por características, cores, tamanhos.
Tudo, ali, mais cedo ou mais tarde, seria aproveitado. Este
olhar desprovido de preconceitos fazia com que utilizasse e
misturasse toda sorte de panos. Assim, no início dos
anos 2000, quando a chita ainda não havia se transformado
em febre e muitos a olhavam com claro desdém, ele já a
usava; e, mais: quantas vezes criou elegantes vestidos para
festa utilizando brocados para forrar sofá! O certo é que,
em suas mãos, os tecidos se transmutavam, mesmo os aparentemente
mais grosseiros, sendo muitas vezes responsáveis pelo
detalhe fundamental de peças de grande requinte. Esse
mesmo jogo entre tecidos era o que lhe permitia criar roupas
cambiáveis, como o casaco sisudo que, em seu interior,
traz uma versão descontraída e totalmente distinta.
Carlos adorava brincar com essas possibilidades, e também
adorava vestir pessoas que se propusessem a entrar na brincadeira.
Sobre isso, dizia comumente que, se pudesse, vestiria a pop
star Madonna.
Se as combinações de tecidos, cores e estampas
davam vazão a brincadeiras diversas, a confecção
em appliqué exigia-lhe uma ordem, paciência e
domínio pontuais. Empreendia todo o trabalho manualmente
e sem ajudantes, costurando tecido sobre tecido, criando desenhos
e formas a partir dos cheios e vazios das fazendas. Sem dúvida
alguma, suas peças em appliqué poderiam integrar
coleções de grandes museus do vestuário,
dada a elegância, o acabamento e o diálogo estabelecido
entre a milenar técnica indiana e as formas contemporâneas
criadas pelo artista.
Cidadão do mundo, só nos últimos anos
Carlos viveu, efetivamente, no Brasil, depois de longas passagens
por Londres, Paris, Nova Iorque e Índia. Talvez por
isso seu trabalho não tenha tido a divulgação
merecida em nosso país, o que essa exposição,
humildemente, tenta fazer.
*
Paula Ramos é jornalista, crítica de arte e
doutoranda em Artes Visuais, ênfase em História,
Teoria e Crítica de Arte/UFRGS. É professora
de História da Arte junto ao Centro Universitário
Feevale e ao Centro Universitário Ritter dos Reis.