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Arte, Design & Moda: Costuras
Curadoria: Paula Ramos*

O diálogo entre as artes visuais, o design e a moda vem de longa data. Tendo suas matrizes articuladas em torno do eixo aparentemente paradoxal da necessidade e do simbólico, uma área penetra e influencia a outra, enriquecendo-lhe tanto o repertório formal, como o discursivo. Assim, vários são os artistas plásticos que criaram ou têm produzido para o universo da moda, da mesma forma que muitos são os estilistas que pautam suas coleções em linguagens consagradas do campo das artes visuais. Na primeira via, temos Lucio Fontana, por exemplo, que em 1961 desenhou um vestido, com o corte tão característico de sua poética, para a maison milanesa Bruna Bini; ou ainda Andy Warhol, que em 1975 apresentou os chamados Vestidos Compósitos a partir de roupas recortadas de nomes como Valentino, Yves Saint Laurent e Oscar de la Renta. Nos anos 90, Daniel Buren montou as vitrines para a maison Nina Ricci, em Paris, inspirado, por sua vez, nos desenhos para tecidos de Gustav Klimt, enquanto que Cindy Sherman, durante três temporadas, assinou os convites enviados à clientela selecionadíssima da marca Comme des Garçons, anunciando as novas coleções de Rei Kawakubo. Como reflexão mais crítica acerca das relações humanas e tomando como objeto plástico igualmente a referência ao vestuário, temos o emblemático Vestido de Casamento, de Christo e Jeanne Claude (1967), produzido para uma performance, na qual a modelo arrastava, com cordas por todo corpo, um imenso fardo empacotado.
 
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Já na segunda via, dos estilistas que bebem na fonte das artes visuais, há a célebre coleção de Yves Saint Laurent baseada nos trabalhos de Piet Mondrian; ou os reiterados trabalhos da britânica Vivienne Westwood, que tem no repertório punk e nos trajes e pinturas dos séculos XVII e XVIII suas mais notórias fontes de inspiração. E o que dizer das impressionantes criações de Issey Miyake, verdadeiras esculturas de plissados?

Não cabe, aqui, traçar qualquer tipo de histórico ou mesmo comentários mais complexos acerca desses cruzamentos. Entretanto, é importante frisar que é a partir do século XX, com a consolidação das esferas do design e da moda, que assistiremos à ascensão de grandes desenhadores, num movimento mais ou menos semelhante ao ocorrido no século XV, no âmbito das artes visuais, com o que se convencionou chamar de Renascimento.

Nos tempos atuais, de enorme apelo visual, em que a arte contemporânea nem sempre tem conseguido alcançar, seduzir e mesmo questionar o público, a moda tem se mostrado um campo repleto a investigações e a reflexões de várias ordens. Observando os mega-eventos ligados ao sistema da moda, notadamente os desfiles das grandes marcas, quando são exibidas as tendências e coleções para a temporada, podemos pensá-los tanto a partir da lógica da efemeridade e do consumo ostentatório, como grandes espetáculos culturais e cênicos, nos quais aspectos estéticos, étnicos, religiosos, artísticos e tecnológicos, entre diversos outros, fundem-se em torno do corpo, do mostrar-se e do parecer.

A exposição Arte, Design & Moda: Costuras – abrindo a programação 2007 do Espaço Ecarta, que tem como foco a articulação dos campos das artes visuais e do design – traz justamente obras de dois artistas que operam a partir de cruzamentos semelhantes. São eles: Felix Bressan e Carlos Brum Motta.

O primeiro é artista plástico com consolidada trajetória em escultura e cenografia, celebrada por participações em importantes mostras individuais e coletivas pelo país, a exemplo das três primeiras edições da Bienal Mercosul. As esculturas apresentadas são da série Corpo Ausente, surgida entre 1995-96, ao longo de seu Mestrado em Poéticas Visuais junto à UFRGS, e que até hoje vem sendo trabalhada, embora de modo não sistemático. Como pontua a jornalista e crítica de arte Angélica de Moraes, elas abordam a roupa como epiderme de fetiche. Inspiradas nas antigas peças íntimas do vestuário feminino, como saias de armação, anquinhas e espartilhos, remetem tanto ao desejo e à memória de um corpo distante, como trazem incorporado um forte apelo sadomasoquista, expresso nos elementos pontiagudos, nas amarras, correias e ferros justapostos a esse corpo imaginário.

Estas peças exibem também uma relação explícita com o trabalho de modelagem de vestuário, ao qual Felix se dedicou por mais de dez anos (1979-1990), primeiro como ajudante da mãe, que mantinha um curso de modelagem industrial em Caxias do Sul, sua cidade natal, depois como professor nessa mesma escola.

Explorando, de um lado, a maciez e delicadeza dos couros e resinas que, em geral, estruturam os corpetes e, de outro, a robustez e certa opressão dos ferros das saias, que ampliam o objeto e prendem o espectador, estas esculturas proporcionam um forte impacto visual, tanto pelo desenho em si, como pelo movimento que elas clamam. Surpreendem também pelo esmero com o bem acabado, com os encaixes precisos e a simetria; surpreendem mais ainda quando percebemos com o quê elas são feitas: resina, retalhos de couro, metal, varas de guarda-chuva, teclas de máquina de escrever, pedaços de madeira... Todos materiais reaproveitados que o artista funde com maestria, num processo de decomposição, reconstrução e também deformação, questionando a função instrumental e original do objeto e dando-lhe outros significados.

Em sua poética como um todo, interessa a Felix a articulação da escultura com o seu entorno. E, no caso específico da série Corpo Ausente, o elemento cinético é primordial. Muitas dessas obras são monumentais, exigindo grandes espaços nos quais possam girar e envolver plenamente o espectador. Muitas são também cambiáveis, podendo ser reduzidas ou até ampliadas, bastando, para isso, que o espectador interfira. Tal operação só é possível porque elas funcionam como máquinas, com suas engrenagens pontualmente articuladas. E aqui podemos perguntar: o artista nos sugere um corpo maquinizado ou uma máquina corporificada?

Estabelecendo uma grande costura entre referências visuais do ambiente da moda, o vazio do corpo e o cheio a que a escultura remete, a sensualidade do feminino idealizado e também a dor e a prisão que lhe são impostas, Felix Bressan nos oferece uma obra singular e instigante, que tanto nos convida ao mais puro deleite, como a reflexões de várias ordens.

Carlos Brum Motta (in memoriam) construiu sua trajetória como estilista trabalhando para várias butiques e casas de renome internacional. As peças expostas são uma pequena mostra de sua versatilidade e talento, tanto no segmento do vestuário, como no da decoração. Criadas a partir de tecidos confeccionados em tear, estampados manualmente ou trabalhados na tradicional técnica indiana do appliqué, elas constituem exemplo da feliz união entre moda, desenho e cultura visual.

Homem de admirável conhecimento no campo do cinema, da fotografia e das artes visuais, Motta fez diversas parcerias com artistas e amigos, produzindo a partir de tecidos pintados e interferidos por nomes como Alex Vallauri e Maria Lídia Magliani. Era um tipo de desafio que apreciava especialmente.

Os motivos para muitas de suas peças, Carlos buscava no dia-a-dia, nas aparentemente tolas e fortuitas formas. Em seus passeios e caminhadas, mantinha os sentidos e olhos bem abertos, quase sempre acompanhado pela câmara fotográfica. Registrava, assim, as ondulações das pétalas de uma flor, a sombra da grade projetada na calçada, o efeito das luminárias num dia chuvoso. Detalhes como esses podiam funcionar como mote para o desenvolvimento de padrões para seus carimbos e mesmo costuras. Este, aliás, é um aspecto particularmente interessante de suas criações: Carlos trazia para a superfície dos tecidos as várias possibilidades da dupla agulha-e-linha, criando desenhos e texturas a partir do que ele chamava de “passar a linha”.

Outro fator marcante é o profundo afeto e até respeito que tinha em relação aos tecidos em geral. Sabia aproveitar desde as grandes tramas, até as fazendas pouco nobres e os retalhos tradicionalmente destinados à lixeira. Em seu atelier, mantinha espécies de famílias de tecidos, agrupadas por características, cores, tamanhos. Tudo, ali, mais cedo ou mais tarde, seria aproveitado. Este olhar desprovido de preconceitos fazia com que utilizasse e misturasse toda sorte de panos. Assim, no início dos anos 2000, quando a chita ainda não havia se transformado em febre e muitos a olhavam com claro desdém, ele já a usava; e, mais: quantas vezes criou elegantes vestidos para festa utilizando brocados para forrar sofá! O certo é que, em suas mãos, os tecidos se transmutavam, mesmo os aparentemente mais grosseiros, sendo muitas vezes responsáveis pelo detalhe fundamental de peças de grande requinte. Esse mesmo jogo entre tecidos era o que lhe permitia criar roupas cambiáveis, como o casaco sisudo que, em seu interior, traz uma versão descontraída e totalmente distinta. Carlos adorava brincar com essas possibilidades, e também adorava vestir pessoas que se propusessem a entrar na brincadeira. Sobre isso, dizia comumente que, se pudesse, vestiria a pop star Madonna.

Se as combinações de tecidos, cores e estampas davam vazão a brincadeiras diversas, a confecção em appliqué exigia-lhe uma ordem, paciência e domínio pontuais. Empreendia todo o trabalho manualmente e sem ajudantes, costurando tecido sobre tecido, criando desenhos e formas a partir dos cheios e vazios das fazendas. Sem dúvida alguma, suas peças em appliqué poderiam integrar coleções de grandes museus do vestuário, dada a elegância, o acabamento e o diálogo estabelecido entre a milenar técnica indiana e as formas contemporâneas criadas pelo artista.

Cidadão do mundo, só nos últimos anos Carlos viveu, efetivamente, no Brasil, depois de longas passagens por Londres, Paris, Nova Iorque e Índia. Talvez por isso seu trabalho não tenha tido a divulgação merecida em nosso país, o que essa exposição, humildemente, tenta fazer.

* Paula Ramos é jornalista, crítica de arte e doutoranda em Artes Visuais, ênfase em História, Teoria e Crítica de Arte/UFRGS. É professora de História da Arte junto ao Centro Universitário Feevale e ao Centro Universitário Ritter dos Reis.


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