Mirar-se
no espelho é encontrar esquecimentos, desaparições
e projeções. Ao reunir
Téti
Waldraff,
Claudia
Barbisan,
Lizângela
Torres,
Marina
Camargo,
Jaqueline
Carvalho e
Juliana
Niemeier nesta exposição, projeto sobre
suas obras um olhar que as amplia e distorce. É como se
estivesse vendo um corpo através de um espelho curvo.
A percepção sobre ações corporais cotidianas é o
ponto de partida para a criação de suas propostas
artísticas, mas as proximidades encerram-se aí. O
corpo – sua imagem, forma, gestos, linguagem – é,
nesta exposição, ultrapassado, coberto, costurado,
fotografado, desconstruído, desajustado em diferentes abordagens.
No trabalho de Lizângela Torres o corpo é tratado
como imagem, fotografado em aparição e desaparecimento.
Uma seqüência de fotografias noturnas com o vulto de
uma mulher em pé, no corredor de uma casa. Na montagem horizontal,
sua imagem surge e desaparece, é o
Assomo de Lizângela
Torres, cuja aparição é a própria artista.
Auto-retrato ou foto-performance? Pouco importa classificar. Suas
fotografias são sempre carregadas de uma carga enigmática,
as figuras estão em constante penumbra, em cenas noturnas
e espaços indefinidos. Há, nelas, um clima de suspense.
A artista propõe-nos a experiência da escuridão
e pouco conseguimos ver da cena que está diante de nós.
É diante de muita luz que Jaqueline Carvalho elabora
suas fotografias. Nas quais, o corpo fotografado nu torna-se
desajustado, desconstruído, disponível para ser
re-articulado, inventado.
Jogo para desejar, trabalho de Jaqueline é um
conjunto de cinco cubos revestidos por fotografias de partes
do corpo de diferentes mulheres. “Distribuídos no
chão à espera da participação do
espectador, os cinco cubos sobrepostos um em cima do outro medem
o tamanho de uma pessoa”. O rosto das mulheres é sempre
o de Jaqueline, que parece transformada em outras, o jogo proposto
entre a sua face e as combinações entre os corpos,
cria mulheres possíveis, estranhas, deformadas, belas.
A crítica ao desejo de tornar a própria imagem
semelhante a do ídolo, da modelo, da artista, da boneca – é usada
pela artista como argumento para pensar a imagem no cotidiano.
Distante,
mas nem tanto da imagem, no processo de trabalho de Claudia Barbisan,
a representação fragmenta o corpo
e, ao multiplicar o excerto, o ultrapassa.
Jardim
do paraíso:
nem tudo são flores, é a instalação
que a artista está preparando para esta exposição.
Na proposta, Claudia desdobra um de seus trabalhos eróticos,
apresentados na exposição
Que ser isto? (2005).
Pequenas peças feitas com parafina, essências perfumadas,
pêlos humanos e flores artificiais, vistas de longe, parecem
coroas de flores. São medalhões com a forma de
vulva no centro. Ironia, perfumaria e erotismo,
Jardim
do paraíso:
nem tudo são flores é um conjunto de cem medalhões
cheirosos, floridos e peludos – morenos, ruivos, loiros,
grisalhos, castanhos. Um trabalho que conta com a colaboração
de diversos amigos.
Gestos como cobrir, juntar, costurar e colar
são trabalhados
por Téti Waldraff, em uma série de ações
repetitivas, nas quais, a artista cria
assemblage como quem pinta.
Bolas e bonecos de brinquedos afixados sobre
skates e revestidos
com flores de tecido, contas, lantejoulas e
lycra são
objetos que fazem parte da série
Jardins
Zoobotânicos,
que Téti iniciou em 2005. A articulação
entre: o farto uso de objetos de plástico coloridos provenientes
da China, a preferência por motivos florais, a referência
que a artista faz à pintura e as ironias em sua opção
por títulos como:
Os amores de galinha no jardim,
Cavalo atolado em flor e
Pato de kimono saindo da lagoa, fazem dessa
série, vistosa e lúdica um conjunto complexo com
referências da cultura popular, da pintura ingênua
e das animações eletrônicas de nosso tempo.
Ultrapassar
a linguagem escrita a partir de um sistema de desconstrução
do uso dos signos gráficos, reutilizando-os em novas configurações, é parte
das proposições de Marina Camargo. Seus cartazes,
nomeados de
Sentimentos Distraídos, têm como referência
um manual de montagem e conserto de carros articulado com dicas
para tratar sentimentos. Já
A
Grande Enciclopédia
do Lar é um trabalho feito especialmente para essa exposição.
Marina desenvolve, em dois desenhos, um jogo com a linguagem
gráfica e a escrita. Num deles, dispõe sobre uma
grade ortogonal algumas letras de nosso alfabeto; noutro, encontram-se
fragmentos de uma trama composta por linhas, pontos e números.
Ambas as proposições possuem traços, ordenações
e, ao mesmo tempo, a disposição de elementos gráficos
distribuídos de forma aparentemente aleatória.
Cobrir,
ultrapassar, riscar e desajustar são também
ações que constituem o processo de trabalho com
a imagem do corpo nos desenhos de Juliana Niemeier. A artista
vem desenvolvendo uma série de desenhos (sem título)
iniciados há dois anos, por ocasião de seu projeto
de graduação em Artes. Nesses trabalhos, o papel é tratado
como coisa que se dobra, molha, borra, rasga e tinge. Depois
dessa série de ações, Juliana passa a tracejar
sobre a superfície figuras como esqueletos, caveiras,
máscaras e, através do uso de carimbos, personagens
femininos de histórias infantis. Juliana apresenta os
desenhos na parede, deixando pequenas distâncias entre
eles. Essas montagens criam narrativas nas quais os personagens
parecem estar saltando de uma folha a outra, em situações
de fuga ou em projeções indo de encontro a outros
personagens.
Lilith no espelho na Fundação ECARTA, expõe
aos visitantes diferentes olhares sobre a feminilidade contemporânea
e apresenta-se como uma oportunidade para pensar-se o corpo,
a imagem e o cotidiano.
* Feminino negativo, arquétipo das forças incontroláveis
do instinto humano.
Curadoria
Elaine
Tedesco -
Março 2005
Artista plástica, Mestre em Poéticas
Visuais