O
trabalho de Ricardo Mello no olhar de Maria Ivone dos Santos:
Em tempo:
uma imagem
A pintura de Ricardo Mello nos emudece pelo encantamento que provoca,
sentimento este exaltado pelo tempo lento, pela sobreposição
de toques de cor das passagens de tons que o artista meticulosamente
executou ocupando algumas centenas de horas de labor. Remontando o processo,
observamos que Ricardo estabeleceu um conjunto exigente de regras de
trabalho sem abdicar do prazer que lhe proporcionou a pintura como prática.
Sua obra de fato é complexa sendo constituída pela transposição
de uma cena escolhida do arquivo de fotografias realizadas pelo artista
numa noite branca, e diante do banho de imagens de vídeos ao qual
se submeteu. Podemos apresentar alguns de seus gestos: remexer os fundos
de imagens-vídeo descartadas; visionar e fixar pela fotografia
algumas cenas; arquivá-las e destacar e projetar uma para pintar.
Pintar sim, mas seguindo uma ordem que vai ponto por ponto inserindo
as cores diluídas, do magenta e amarelo até às cores
mais frias. Não se utiliza nem do branco nem do preto, pois a
primeira é a cor de seu suporte e o preto desbotado que vemos é obtido
apenas pela saturação das demais.
Diante desta pintura somos convocados ao prazer de uma imagem que se
impõe como experiência. A performance que este trabalho
proporciona ao expectador é muito distinta da que teríamos
diante da imagem-tempo do vídeo. Diante desta pintura o tempo
se dilata - esta foi efetivamente a experiência do artista - dando-nos
a possibilidade de ressentir a aura e a graça, em tempos de virtualidade,
de velocidade e profusão de imagens. Este trabalho demarca uma
atitude corajosa e política: o artista ao se deter na necessária
meditação da natureza desta imagem, contribui para uma
restauração da experiência do ver e do fazer. A pintura é salva
das águas pela pintura e por um gesto paradigmático que
pensa o vídeo e a fotografia, para remontar um tempo da imagem
mediada pela mão do artista. Como numa partida de xadrez, aqui
a mão move uma peça em direção a uma experiência
estética das mais exigentes: parar e fazer cintilar a imagem na
contemporaneidade.
O trabalho
de Fernanda Brauner Soares no olhar de Maria Helena Bernardes:
Se meu livro puder fazer com que alguns homens saiam às ruas,
escreveu André Breton, já estarei contente. Paisagens são
raras na arte de hoje; ainda mais raras são as que nos dão
vontade de cruzar a rua e mergulhar no parque, logo em frente à Galeria
Ecarta, para experimentar no corpo a profusão de clareiras, troncos
e ramadas, o ar verde e o sabor terroso das gravuras de Fernanda Soares,
que acabamos de deixar para trás. Paisagens são raras,
hoje em dia, mas as que imprimem em nossa pele uma sensação
de mundo, isso é mais do que raro, é uma preciosidade.
Maria Helena Bernardes
Maio 2008
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Detalhe da obra de Fernanda Brauner Soares |
| Divulgação
Ecarta |
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Detalhe
da obra de Ricardo Perufo Mello |
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